O conceito de fé abrange vários
domínios da vida humana sendo utilizado em diversos âmbitos de acordo com as normas
estabelecidas entre os homens.
São Paulo definiu-a como a
“demonstração das coisas que não vemos” o que permite a abertura para duas
dimensões: a fé terrena, vivida através da interacção entre os homens e entre
estes e o mundo físico que os rodeia, e a fé divina, estabelecida na relação do
homem com o mais sagrado e divino.
A fé terrena assume variadas
formas, desde o acreditar nos pensamentos e sentimentos de alguém, em alguma
filosofia, o ter esperança relativamente à resolução de alguma situação que não
conhecemos e que não sentimos com os nossos sentidos, o acreditar na
recuperação de uma doença, a esperança de que dias melhores virão, o acreditar
em determinadas sensações e sonhos, ou simplesmente a comprovação da
autenticidade de algo, quando usada em termos jurídicos.
A fé divina é estabelecida na
relação de cada pessoa com algum tipo de crenças ou religião seja ela qual for;
reflecte-se como um crer nas verdades proclamadas por determinada doutrina ou religião,
bem como na ordem e divindades que as protagonizam. A esfera é de âmbito
individual e implica uma confiança e aceitação totais.
Na religião cristã, a fé engloba
os ensinamentos transmitidos por Cristo e assenta na confiança e no “acreditar
em coisas que se esperam, a convicção de factos que não se vêem,
independentemente daquilo que vemos, ou ouvimos”.
Qualquer que seja a dimensão
usada, a verdade é que a fé abre caminho a um espaço desconhecido onde a
ciência nada consegue demonstrar, onde os cientistas nada conseguem medir e
comprovar, onde a mente humana fica despida da sua lógica. Na fé só se entra
com o coração aberto pois entra-se no reino místico da confiança sem provas
visíveis.
Outros contextos referem ainda a
fé como um dom, outros como um acordo intelectual imposto pela vontade, como
uma ilusão, ou como uma crença cega que no limite pode prejudicar a liberdade
de outrem.
Maturidade da fé
Todos os conceitos e experiências
humanas têm tempos de nascimento e maturação dependentes da consciência de cada
um e do discernimento que os acompanha. Qualquer tema ou situação vai sendo
vivido e testado ao longo da vida até se tornar algo integrado que passa a fazer
parte da pessoa. Neste sentido, a fé começa por ser inocente na medida em que a
mesma é vivida tendo por base necessidades egoístas e individuais, regida por
crenças cegas de que tudo correrá bem para o próprio, e que tudo é bom e
perfeito. Na escola e em casa, ensina-se a obediência aos que sendo mais
maduros impõem limites e regras que não se questionam, não necessariamente coerentes
e sábios.
Mas a fé não é uma obediência
cega perante tudo, não se trata de ingenuidade, mas antes de um desabrochar do
coração para algo transcendente, o que só poderá ocorrer após um processo de
crescimento e entendimento a vários níveis.
A fé adulta pede uma
responsabilidade pessoal, um olhar fraterno sobre o mundo, uma profunda
aceitação e amor.
Os tempos falaram da fé baseada
na magia, na religião de massas, mas agora falam da fé como um despertar da
energia interior de cada ser para o divino. Assim, deixa de estar enquadrada e
presa a um conjunto de rituais e formalismos, cansada e gasta pelas palavras
sem entusiasmo de quem a proclama, para passar a estar mais viva dentro de cada
ser humano, podendo ser vivida na plenitude da relação que cada um estabelecer
com o mais sagrado, com criatividade, amor e coragem.
Alicerces e profundidade da fé
A fé sendo uma das virtudes do ser
humano, baseia-se numa convicção e na confiança sobre a verdade de algo, o que pressupõe
na sua complementaridade o seu oposto: a dúvida. No processo de maturidade a
dúvida surge sempre, caso contrário não se evoluiria da fé infantil, mas ambas
não podem coexistir em simultâneo, ou se duvida ou se tem fé. A dúvida é
legitimada pela vivência da vida a qual traz à superfície em diversos momentos
os receios mais profundos da alma humana, as inseguranças, as angústias as
quais fazem balançar as convicções ou por vezes enraíza-las mais profundamente
no íntimo de cada um. As noites escuras da alma são assim os testes que cada
ser passa há procura de uma luz externa para a qual por vezes basta saber como
aumentar a chama dentro do seu peito, a fé. Neste sentido o amor e a fé
entrelaçam-se pois não podem existir um sem o outro: a fé sem amor não é viva
nem fértil, e o amor sem fé não é incondicional.
A procura da verdade e o viver em
verdade de acordo com determinada crença pressupõe coragem, coragem para com o
exterior e para com o interior, para assumir a escolha, pois só assim se poderá
viver em integridade.
A fé à luz dos ensinamentos Rosacruzes
Nos ensinamentos a fé antecede o despertar
do Cristo interno de cada um, através do caminho da oração e do serviço desinteressado
aos outros, não deixando cada ser de conservar as suas posses materiais que lhe
foram confiadas e consideradas sagradas.
Constata-se a separação entre uma
fé indiferente, praticada amplamente pela maioria, condicionada pela mente que
traz como vantagem o equilíbrio mental e coragem quando necessário, por
contraponto a uma fé viva superada pela mente porque o coração sente.
A evolução e o desenvolvimento
espiritual pressupõem a existência da fé pois caso contrário, não se poderá
pensar, sentir e agir de acordo com os ensinamentos os quais por si só têm uma
natureza invisível e impalpável.
Questões de fé
Os requisitos já enunciados para
se vivenciar a fé, a maturidade, o amor, a coragem, unem-se para que em
conjunto com a oração e o serviço aos outros cada ser humano possa em sintonia submeter
a sua própria vontade à vontade divina. A vontade, algo que também amadurece
fruto das nossas escolhas e da consciência da autoridade que temos sobre nós
próprios, é subjugada a uma vontade maior na qual se crê. Essa fé é o acreditar
que seja o que for será por um bem maior mesmo que incompreensível de momento,
e que a vida de cada um é vivida de acordo com uma orientação superior. Quando
se age por medo resiste-se a esta orientação, não se ouve o coração nem a
intuição.
Por vezes pensa-se que seguir uma
orientação divina implicará a perca do conforto, por isso se limita a fé:
acredita-se mas não se aplica, não há entrega. Porém a única coisa que se perde
são as ilusões, as quais apresentam dificuldade em serem dispensadas pois
vive-se com base em hábitos e ideias enraizados há muito, e a personalidade
luta conscientemente pela sua existência e autoridade individual.
Resta então saber até que ponto
cada um poderá dizer ao mais divino “Escolhe que eu obedecerei” ou “Seja feita
a Vossa vontade e não a minha”, até que ponto nos temos que render ao divino
para obter a redenção?
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