Todos nós conhecemosa importânciade existirem períodos de silêncio na nossa vida, no nosso quotidiano, portanto, o tema é muito simples, poderá tocar em vários outros temas, pois é bastante transversal e, seguramente não irei realizar nenhuma descoberta como a da pólvora, surgiu-me simplesmente para relembrar da importância do Silêncio que muitas vezes consideramos um incómodo, até mesmo em situações domésticas como o cruzarmo-nos com um vizinho no elevador e sentirmos o nosso desconforto e o do vizinho por irmos em silêncio, então, aí para cortarmos o “gelo” começamos a falar do tempo ou da limpeza do prédio ou de outra banalidade qualquer. Temos uma necessidade quase inerente de quebrar o silêncio.
"A necessidade cada vez mais aguda de ruído só se explica pela necessidade de sufocar alguma coisa". Konrad Lorenz, citado em 3001 pensamento.
Atualmente as pessoas estão tão embrenhadas nos seus afazeres diários e nas suas rotinas que não se dão conta do quão barulhenta é a sua vida: no automóvel, a caminho dos empregos ou de regresso a casa, liga-se o rádio, muitas vezes nem o estamos a ouvir, mas ali vai o ruído, a nossa companhia; nas compras andamos ao ritmo da música imposta; no emprego temos toda uma série de ruídos inerentes ao nosso local de trabalho; em casa ligamos a rádio ou a televisão ou temos as crianças num frenesim à nossa volta. Sabemos que a vida é ação e, no meio desta ação haverá espaço para o silêncio? A ação tem de ser necessariamente ruidosa? Qual o papel do Silêncio no meio de uma vida que nos impele à ação? Não será o silêncio, o pêndulo da balança que nos fará consciencializarmo-nos para que lado decidimos fazer pender os pratos da balança da nossa vida?!
Muitas das nossas decisões, pequenas ou grandes opções que tomamos diariamente (cujo somatório formam o todo da nossa vida) são feitos debaixo de muito ruído, talvez porque não aprendemos a disciplinarmo-nos perante o silêncio.
"O exercício do silêncio é tão importante quanto a prática da palavra". William Jamescitadoem "Touchstones: a book of daily meditations for men".
A entrada da Escola fundada por Pitágoras – onde o isolamento do mundo exterior era total – exibia a seguinte advertência: “Proibida a entrada a Profanos”. Esta Escola tinha um sistema de três graus: o de Preparação, o de Purificação e o de Perfeição. Os neófitos eram só ouvintes, estavam proibidos de falar e cumpriam um período de observação, durante o qual a regra era calar e pensar no que ouviam. Para atingir um grau superior precisavam de praticar o Silêncio durante 5 anos.
Chílon, um dos sete sábios da Grécia Antiga, quando perguntado sobre qual a virtude mais difícil de praticar, respondia: calar.
Sem dúvida que é um grande desafio, ouvir colegas, companheiros, mestres e não falar. A palavra é poderosa, tem energia, vibração. “ (…) Os magos utilizam-nas porque crêem que elas têm uma carga energética, que lhes dá o poder de realizar o que pretendem. Acreditam também que a invocação de nomes e poderes de algumas entidades, atrai à terra as suas influências.
Cada palavra proferida gera uma pequena forma em matéria etérica, tal qual o faz um pensamento na matéria mental. As vibrações sonoras têm um grande poder sobre a matéria concreta. Podem criar ou destruir. As vibrações produzem formas geométricas, sempre a mesma forma para o mesmo som. Quando utilizamos palavras, reforçamos as qualidades a que se referem, quer nas pessoas quer no ambiente que nos rodeia. As palavras relacionadas com as qualidades desejáveis produzem formas agradáveis, ao passo que as associadas às qualidades más, produzem formas desagradáveis. Se a nossa linguagem for descuidada e inculta, rodeamo-nos de uma atmosfera de formas sonoras desagradáveis que reagem constantemente e negativamente sobre nós. Os próprios nomes das coisas e das pessoas não são arbitrários, representam características que se consolidam à medida que são pronunciados.
A responsabilidade do aspirante ao Conhecimento é maior. Nesse sentido, deve vigiar a sua maneira de falar, bem como o assunto, porforma a que seja amável, agradável, correta e livre de desconsideração e exagero. As suas palavras devem ser bem escolhidas e bem pronunciadas, pois uma palavra uma vez dita, não mais é apagada.” Fátima Capela emhttp://centro-rosacruz.com/crcmh1_073.htm
“Se a palavra que vais dizer não é mais bela do que o silêncio, não a digas.” Provérbio Sufi.
Desconheço literatura dentro da Filosofia Rosacruz alusiva a este tema – O Silêncio – no entanto, ao longo destes meses temos recebido alguns pensamentos diários à luz desta Filosofia e os que a seguir exponho chamaram-me a atenção, uma vez que direta ou indiretamente aludem à importância do silêncio nas nossas vidas.
“Se acendermos um fósforo no meio de um vento muito forte, ele se apagará imediatamente. Mas, se o acendermos com cuidado e calma próximo a um monte de galhos secos, conseguiremos que a chama cresça, pois o vento irá reavivá-la ao invés de apagá-la. Adeptos ou Grandes Almas podem permanecer serenos sob condições que perturbariam o aspirante comum, por isso, este tem que usar de discernimento e não se expor desnecessariamente às condições contrárias ao crescimento anímico. O que mais precisa ter é equilíbrio, e nada é mais nefasto para consegui-lo do que o ruído.”
Max Heindel, "Colectâneas de um Místico". Pensamento do dia 23/3/2012.
“No entanto, as coisas que mais ajudam ou impedem são, como já dissemos, as tão pequenas que escapam inteiramente à nossa atenção. Ao enumerá-las, poderão provocar um sorriso de incredulidade, porém, se meditarmos sobre elas e as pusermos em prática, concluiremos que, segundo o axioma, "por seus frutos os conheceremos". Assim, nossa afirmativa de que "o silêncio é um dos maiores auxiliares no crescimento anímico", deveria ser cultivado pelo aspirante em seu lar, em seu comportamento pessoal, em seus passeios, seus hábitos e, por mais paradoxal que pareça, até em sua conversação.”
Max Heindel, "Colectâneas de um Místico". Pensamento do dia 25/3/2012.
“Uma prova do bem que faz a religião é que ela torna as pessoas felizes. Não obstante, a maior felicidade está, geralmente, muito profunda para ser mostrada externamente. Preenche todo nosso ser com tal plenitude, que é quase atemorizante, e uma conduta tumultuada nunca segue junta com a verdadeira felicidade, pois o ruído é o sinal da superficialidade. A voz alta, a risada vulgar, os hábitos barulhentos, os saltos dos sapatos que soam como marretas, o bater de portas e o barulho dos pratos são sinais de pessoas de sentimentos grosseiros, que amam o barulho e quanto maior ele for mais felizes ficam, uma vez que excitam os seus corpos de desejos. Para seu gosto, a música sacra é um anátema. Um conjunto de instrumentos metálicos de alta intensidade é preferível a qualquer outra forma de diversão, e quanto mais selvagem for a dança, melhor. Isto não acontece ou não deveria acontecer com o aspirante à vida superior.”
Max Heindel, "Colectâneas de um Místico". Pensamento do dia 26/3/2012.
“Não é essencial para a felicidade das crianças que elas possam gritar ou correr freneticamente pela casa, batendo portas e quebrando móveis em sua desabalada carreira; é, sem dúvida, decididamente prejudicial, pois ensina a desrespeitar os sentimentos dos outros para sua própria gratificação. Elas beneficiarão mais se os seus sapatos tiverem sola de borracha e se forem ensinadas a reservar suas brincadeiras barulhentas para o jardim, brincando calmamente dentro de casa, fechando as portas com cuidado e falando em tom moderado, como as mães devem fazer.”
Max Heindel, "Colectâneas de um Místico". Pensamento do dia 28/3/2012.
“Portanto, devemos por todas as maneiras fugir de ruídos que não somos obrigados a ouvir, e cultivar pessoalmente o comportamento quieto e bondoso, a voz modulada, o andar silencioso, a presença discreta e todas as outras virtudes que conduzem à harmonia. Assim, o processo de restauração será rapidamente realizado e estaremos livres a maior parte da noite para trabalhar nos mundos invisíveis, para adquirir o almejado crescimento anímico. Lembremo-nos que é necessário melhorar sempre, não desanimar com fracassos ocasionais, recordando a advertência de Paulo: "paciente perseverança em fazer o bem".”
Max Heindel, "Colectâneas de um Místico". Pensamento do dia 30/3/2012.
Na generalidade dos textos há a referência, o aconselhamento da prática do silêncio, da ausência de ruído ou de menor ruído de forma a facilitar o nosso processo de crescimento. Tanto como a palavra, o silêncio é poderoso, penso que mais poderoso que a própria palavra, pois esta depois de proferida, a sua vibração permanece e somos nós que temos a responsabilidade de criar a qualidade das palavras que dizemos. E a melhor forma de o fazermos é treinando o silêncio, bem como os pensamentos que permanecem no nosso interior quando contemos as palavras.
No silêncio disciplinamo-nos, centramo-nos, meditamos, ouvimos a nossa voz interior, o Eu Superior, o nosso coração (como lhe queiram chamar), ligamo-nos a nós próprios e ao Divino, crescemos espiritualmente, ajuda-nos a manter o equilíbrio. É no Silêncio que fazemos os exercícios matutinos (concentração) e vespertinos (retrospecção) a que nos procuramos disciplinar; “trabalhamos” sobre energias mais subtis e ajudamos energeticamente o mundo exterior. É no Silêncio que nos focamos, trabalhamos sobre nós próprios, nos centramos connosco e com a Natureza Divina e é ele que nos dá o mote para executarmos a palavra, para vivermos em harmonia com o Mundo Físico e ajudarmos fisicamente os outros à nossa volta, preparando-nos a lidar com o ruído do quotidiano.
“ Existe no Silêncio tão profunda sabedoria que às vezes ele transforma-se na mais perfeita resposta”, Fernando Pessoa.
O Silêncio é simples, mas não é fácil: no quotidiano frenético precisamos de tempo, espaço e vontade para que ele exista; ele leva-nos a encontrarmo-nos connosco, o que nem sempre poderá ser uma experiência agradável, pois somos confrontados com o nosso íntimo, com os nossos medos, frustrações, tomadas de consciência ou decisões que andamos a evitar. Mas, também é assim que crescemos e… crescer nem sempre é fácil!
“E como podes ver, ainda falo demasiadamente, e isto é sinal de que não sou sábia, porque a virtude se adquire no silêncio.” Umberto Eco, in: "Baudolino"
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Texto enquadrado em Reuniões de Estudo dos Ensinamentos Rosacruzes segundo Max Heindel
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